Mulheres de fibra: protagonismo feminino e saberes quilombolas na Educação do Campo em Lagoa da Canoa/AL
DOI:
https://doi.org/10.48178/intersecao.v10i1.835Resumo
RESUMO: Este artigo analisa os saberes e as práticas culturais protagonizados por mulheres quilombolas de uma comunidade localizada no município de Lagoa da Canoa, Alagoas, buscando compreender como esses conhecimentos contribuem para a preservação da identidade territorial e para o fortalecimento de práticas pedagógicas contextualizadas na Educação do Campo. A pesquisa fundamenta-se na compreensão de que a Educação do Campo e a Educação Escolar Quilombola constituem projetos político-pedagógicos comprometidos com a valorização dos sujeitos, dos territórios e das culturas dos povos tradicionais, reconhecendo os saberes comunitários como elementos essenciais na construção do currículo escolar. As mulheres quilombolas desempenham papel central na preservação da memória coletiva e da cultura local por meio da transmissão de conhecimentos relacionados à culinária tradicional, ao cultivo em quintais produtivos, ao uso de plantas medicinais, às rezas, aos benzimentos, ao artesanato, às festividades religiosas e às formas de organização comunitária. Essas práticas configuram importantes mecanismos de resistência cultural, manutenção da ancestralidade e fortalecimento da identidade territorial. Entretanto, tais conhecimentos permanecem historicamente invisibilizados ou tratados de forma marginalizada nos espaços escolares, refletindo processos de racismo epistêmico que deslegitimam formas não hegemônicas de produção do conhecimento. Diante desse contexto, o estudo busca compreender de que maneira os saberes das mulheres quilombolas podem contribuir para a construção de práticas educativas antirracistas e contextualizadas. A pesquisa adota abordagem qualitativa e participativa, fundamentada na pesquisa-ação. Os procedimentos metodológicos incluem entrevistas semiestruturadas, rodas de conversa, observação das práticas culturais, registros em diário de campo e cartografia social. A análise dos dados será realizada por meio da Análise de Conteúdo, permitindo identificar relações entre território, identidade, gênero, ancestralidade e educação. O referencial teórico articula contribuições da Educação do Campo, dos estudos quilombolas e do feminismo negro, destacando autores que discutem currículo, interseccionalidade, território, história oral e produção de saberes pelas populações negras e tradicionais. Como resultado, espera-se evidenciar a relevância dos conhecimentos femininos quilombolas para a valorização da cultura local e para o fortalecimento de práticas pedagógicas inclusivas. Além disso, a pesquisa prevê a elaboração do “Caderno de Saberes das Mulheres Quilombolas”, produto educacional destinado ao registro e à valorização desses conhecimentos, contribuindo para o fortalecimento da memória comunitária, da identidade territorial e de uma educação comprometida com a diversidade cultural e a justiça social.
PALAVRAS-CHAVE: Educação do Campo; Mulheres Quilombolas; Interseccionalidade; Saberes Tradicionais; Identidade Territorial.
ABSTRACT: This article analyzes the cultural knowledge and practices of quilombola women from a community in the municipality of Lagoa da Canoa, Alagoas, seeking to understand how this knowledge contributes to preserving territorial identity and strengthening pedagogical practices contextualized within Rural Education (Educação do Campo). The research is grounded in the understanding that Rural Education and Quilombola School Education constitute political-pedagogical projects committed to valuing the individuals, territories, and cultures of traditional peoples, recognizing community knowledge as an essential element in constructing the school curriculum. Quilombola women play a central role in preserving collective memory and local culture by passing on knowledge related to traditional cuisine, cultivation in productive home gardens, the use of medicinal plants, prayers and traditional healing rituals (benzimentos), handicrafts, religious festivities, and forms of community organization. These practices constitute important mechanisms for cultural resistance, the maintenance of ancestry, and the strengthening of territorial identity. However, such knowledge remains historically invisible or marginalized within school settings, reflecting processes of epistemic racism that delegitimize non-hegemonic forms of knowledge production. Given this context, the study seeks to understand how the knowledge held by quilombola women can contribute to the construction of anti-racist and contextualized educational practices. The research adopts a qualitative and participatory approach based on action research. Methodological procedures include semi-structured interviews, discussion circles, observation of cultural practices, field journal entries, and social mapping. Data analysis will be conducted using Content Analysis, allowing for the identification of relationships between territory, identity, gender, ancestry, and education. The theoretical framework integrates contributions from Rural Education, quilombola studies, and Black feminism, highlighting authors who discuss curriculum, intersectionality, territory, oral history, and knowledge production by Black and traditional populations. As a result, the study aims to highlight the relevance of the knowledge held by quilombola women for valuing local culture and strengthening inclusive pedagogical practices. Furthermore, the research entails the development of the “Quilombola Women’s Knowledge Handbook” (Caderno de Saberes das Mulheres Quilombolas), an educational product designed to document and value this knowledge, thereby contributing to the strengthening of community memory, territorial identity, and an approach to education committed to cultural diversity and social justice.
KEYWORDS: Rural Education; Quilombola Women; Intersectionality; Traditional Knowledge; Territorial Identity.
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